A ecologia sonora e sua atualidade

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A ecologia sonora nasceu nos anos de 1960, numa época em que a cultura ocidental passava por importantes transformações e assistia-se ao surgimento de vários movimentos que buscavam a renovação das ideias, das instituições e, de uma forma geral, do modo de se viver em nossa sociedade.

Entre essas novas ideias, uma das mais notórias foi a tomada de consciência em relação às transformações que nosso modo de vida centrado no consumo intensivo de mercadorias industrializadas produzidas por via da exploração dos recursos naturais gerava ao meio ambiente, causando destruição de ecossistemas, alterações climáticas, extinção de espécies e muitas outras consequências que, também, viriam a nos afetar de maneira profunda, mais cedo ou mais tarde.

Na verdade, esse não era um conhecimento novo, pois ele pertence ao domínio da ecologia, que já era uma ciência bem estabelecida, tendo surgido na segunda metade do século XIX. O que aconteceu de realmente novo foi a tomada de consciência por parte de um público mais amplo a respeito desse assunto.

Nesse cenário, em meio às preocupações relacionadas à poluição do ar, da água e do solo, também ganhou notoriedade a questão da poluição sonora. Existia, até então, um significativo acúmulo de conhecimento a respeito do problema por parte do campo da engenharia e da otologia (ramo da medicina que estuda o sistema auditivo). Os engenheiros trabalhavam focados na identificação, medição e diminuição ou eliminação das fontes ruidosas, enquanto os otologistas possuíam uma larga experiência no tratamento da perda auditiva ocupacional, uma vez que, desde o século XIX, em decorrência da Revolução Industrial iniciada na segunda metade do século XVIII, os casos de prejuízo à audição dos trabalhadores de indústrias se multiplicaram. 

No entanto, apesar do aporte de conhecimentos já constituídos e das medidas adotadas, chegando, inclusive, ao estabelecimento de leis antirruído em diversas cidades no mundo (já naquela época), ainda assim o problema da poluição sonora persistia e parecia escapar como areia por entre os dedos dos engenheiros e planejadores urbanos.

É nesse contexto que nasce a ecologia sonora, como uma proposta de compreender os sons de uma maneira ampliada, não focando apenas nas medições dos níveis de intensidade sonora, conforme o foco do campo de gestão do ruído ambiental, capitaneado pela engenharia, se direcionava. A proposição de Raymond Murray Schafer, pioneiro da área, era mudar o foco dessa abordagem para o som e a sua contextualização, tendo o sujeito que o percebe como elemento central. É uma abordagem holística e interdisciplinar, que agrega vários campos do conhecimento humano, baseando-se no desenvolvimento da escuta como ferramenta para a superação do problema da poluição sonora. Como o próprio Schafer diz: 

[…] sugeri que multidões de cidadãos (de preferência, crianças) necessitavam ser expostos a exercícios de limpeza de ouvidos para aumentar a competência sonológica das sociedades em geral e continuei a mostrar como o problema da poluição sonora desapareceria se essa cultura auditiva pudesse ser conquistada (SCHAFER, 2011, p. 255).

Schafer propunha que o estudo das paisagens sonoras englobasse profissionais de diversas áreas, como a música, a educação, a engenharia, a ecologia, a saúde e outras mais, pois, diante de uma questão de grande complexidade como essa, não é possível alcançar respostas satisfatórias abordando-a de maneira fragmentada, como vinha sendo a prática tradicionalmente aceita pela ciência ocidental desde a sua fundação, conforme argumenta Marisa Fonterrada:

Os sons ambientais exercem inegável influência sobre o homem e essas influências precisam ser compreendidas dentro de um âmbito mais amplo do que questões médicas e legais. Elas devem ser vistas em seus aspectos políticos, econômicos, educacionais, culturais, sociais e artísticos. A questão é complexa e só pode ser convenientemente abordada em enfoque interdisciplinar (FONTERRADA, 2004, p. 46).

O marco conceitual da ecologia sonora é o livro Afinação do mundo (Tuning of the world), publicado no ano de 1977. Nessa obra Schafer amalgama escritos anteriores, experiências desenvolvidas em diversas partes do mundo e relatos sobre o World Soundscape Project (Projeto da Paisagem Sonora Mundial), que ele tinha iniciado no final dos anos de 1960, na universidade Simon Fraser, no Canadá.

A questão central da ecologia sonora é a busca do equilíbrio dos sons na constituição das paisagens sonoras. Schafer indica, claramente, que os problemas da poluição sonora têm uma causa muito bem definida: as transformações e o modo de vida instaurados a partir da Revolução Industrial, ocorrida no século XVIII e os consequentes cultos à mercadoria e à tecnologia que se seguiram a esse processo. 

A ecologia sonora está intimamente associada com o campo mais amplo da ecologia e, também, com o pensamento sistêmico, haja vista que compreender o problema da poluição sonora requer uma abordagem ampliada e multifatorial, que leva em consideração o contexto em que os sons são produzidos. O pensamento sistêmico é uma linha que vem se desenvolvendo desde a década de 1920 e sua abordagem consiste em observar os fenômenos de maneira contextualizada, jamais de forma isolada. Contrapõe-se, incisivamente, em relação à tradição da ciência ocidental instaurada pelo cartesianismo, cuja abordagem é focada na compreensão dos fenômenos de forma isolada, acreditando que podemos encontrar causas e efeitos de maneira localizada e “consertá-los”, reativando o sistema no qual se insere. Segundo o pensamento sistêmico, isso não é possível, pois, na natureza tudo está conectado e um problema em qualquer parte do sistema gera consequências que são sentidas em todas as demais partes constituintes. 

Para entendermos essa abordagem sistêmica, implícita na ecologia sonora, tomemos como exemplo o problema da poluição sonora. Na abordagem cartesiana, tradicional, busca-se fazer as medições dos ruídos presentes em um ambiente e mitigar, diretamente, a sua produção. Em alguns casos, se possível, procura-se, até mesmo, o estabelecimento de leis que induzam a fabricação de ferramentas, veículos ou outras tecnologias com menor ruído ou a proibição da produção de ruído em certos lugares ou horários, por exemplo. Como se pode constatar, são medidas que visam apenas o problema isoladamente, sem observar o contexto no qual ele se insere. 

Por outro lado, a aplicação do pensamento sistêmico nos leva a compreender que a produção excessiva do ruído está vinculada a uma maneira ampla do funcionamento de nossa sociedade, manifesta na maneira das pessoas se comportarem, seus hábitos ruidosos, a dinâmica da economia capitalista focada na produção e comercialização de produtos (muitos deles, ruidosos), a relação com a natureza, com as decisões políticas que tomamos e com a sociedade como um todo, entre outros aspectos. E tudo isto precisa ser levado em consideração para que consigamos, de fato, promover uma transformação real.

Os conceitos lançados por Schafer influenciaram estudiosos de diversas áreas, servindo como referência para a transformação da maneira de se abordar a problemática que envolve o amplo e complexo problema da poluição sonora.

O conceito de paisagem sonora popularizou-se, irrompendo para muito além dos muros das universidades e recebendo conotações cada vez mais amplas que, em muitos casos, até se distanciam do modo pelo qual o compositor canadense o usou originalmente. A pluralidade de significados que assumiu passou, inclusive, a ser alvo de queixas por parte de alguns pesquisadores do campo dos estudos do som (comumente designado pela terminologia em inglês, sound studies), um campo que surgiu no início dos anos 2000, influenciado pelo trabalho do próprio Schafer. Esses pesquisadores alegam que o termo está desgastado e precisa ser superado (KELMAN, 2010; ARAGÃO, 2019).

No entanto, essas são críticas pontuais, pois, pelo contrário, o conceito de paisagem sonora e, mais amplamente, as discussões propostas pelo campo da ecologia sonora continuam atuais. Aliás, considerando-se o contexto atual, em um momento em que a humanidade vê-se obrigada a reagir de forma mais efetiva contra um possível colapso climático desencadeado pelas ações humanas, a ecologia assume importância ainda maior e, considerando-se a vizinhança entre os campos, o mesmo ocorre com a ecologia sonora.

Além disso, as propostas de Schafer têm exercido notória influência em campos como a arquitetura de paisagens e a saúde. Na arquitetura de paisagens a abordagem baseada nas paisagens sonoras tem oferecido a possibilidade do desenvolvimento de espaços arquitetônicos que promovam um equilíbrio entre os aspectos visuais, tradicionalmente valorizados pelos arquitetos, e os aspectos sonoros, que antes eram olvidados, conforme ilustra de maneira bastante convincente o arquiteto sueco Gunnar Cerwén, em sua tese de doutorado (CERWÉN, 2017). Mais recentemente, pesquisadores do campo da saúde têm empregado a noção de paisagem sonora para compreender os efeitos dos ruídos e sons para a saúde humana e desenvolver tratamentos que possibilitem às pessoas se recuperarem de estados de estresse e outros agravos e, pelos quais, possam promover maior bem estar e saúde, principalmente no cenário das grandes cidades. Um exemplo disso foi o estudo de Matilda Annerstedt e colegas, segundo o qual se constatou que sons naturais apresentam efeitos positivos para a recuperação de pessoas expostas a situações estressantes, enquanto, por outro lado, os ruídos tecnológicos são recebidos como desagradáveis e afetam negativamente a saúde (ANNERSTEDT et al, 2013, p. 249).

Um dos pesquisadores mais notórios do campo da ecologia sonora, em nossos tempos, é o estadunidense Bernie Krause. Ao longo de mais de quarenta anos, Krause viajou pelo mundo realizando gravações de paisagens sonoras de ambientes naturais, tendo montado um arquivo de milhares de sons, muitos dos quais tratando de locais já alterados pelas ações humanas e de espécies já extintas, o que faz com que o seu arquivo assuma um valor inestimável (KRAUSE, 2013). Seu livro A grande orquestra da natureza é uma das produções mais importantes do universo da ecologia sonora.

A preocupação central do trabalho de Schafer é a transformação da percepção humana em relação ao ambiente sônico que o envolve. Ainda que suas proposições englobem e convidem diversos profissionais para pensarem, juntos, o cenário auditivo em que vivemos, é evidente que a educação sonora deveria assumir um papel privilegiado nessa abordagem. E é justamente da área da educação musical que vem a principal pesquisadora do campo da ecologia sonora no Brasil: Marisa Fonterrada. A autora foi responsável pela introdução do pensamento de Schafer em nosso país, tendo promovido a vinda do canadense para participar em eventos em universidades e outras instituições do país em diversas ocasiões nas décadas de 1990 e 2000. Fonterrada também é a tradutora dos livros desse autor para a língua portuguesa. Destaca-se, ainda, o seu livro Música e meio ambiente: a ecologia sonora, que se insere como obra representativa desse campo de estudos no cenário brasileiro.

Como vimos, a ecologia sonora, surgida na década de 1960, a partir do trabalho de Schafer, influenciou diversos autores, de múltiplas áreas e alcançou uma popularidade tal que alguns de seus conceitos se irradiaram para além do círculo fechado das universidades. Conforme foi tratado neste texto, esse campo continua, em nossos dias, a assumir importância diante das questões sistêmicas que a contemporaneidade nos propõe, no tocante ao som e o ruído e sua contextualização em nossa cultura.

Referências

ANNERSTEDT, M. et al. Inducing physiological stress recovering with sounds of nature in a virtual reality forest: results from a pilot study. Physiology & Behavior 118 (2013) 240-250.

ARAGÃO, T. A. Paisagem sonora como conceito: tudo ou nada? Revista Musica Hodie, 2019, v. 19: e53417

CERWÉN, G. Sound in landscape architecture: a soundscape approach to noise. 2017. 119 f. Tese (Doutorado). Swedish University of Agricultural Sciences, Faculty of Landscape Architecture, Horticulture and Crop Production Science. Department of Landscape Architecture, Planning and Management. Alnarp. 2017.

FONTERRADA, M. T. O. Música e meio ambiente: a ecologia sonora. São Paulo: Irmãos Vitale, 2004a.

KELMAN, A. Y. Rethinking the soundscape. The Senses and Society, 2010, 5:2, 212-234.

KRAUSE, B. A grande orquestra da natureza: descobrindo as origens da música no mundo selvagem. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.SCHAFER, R. M. A afinação do mundo: uma exploração pioneira pela história passada e pelo atual estado do mais negligenciado aspecto do nosso ambiente: a paisagem sonora. 2.ed.São Paulo: Editora Unesp, 2011.

Compositor e professor de música. Possui graduação em Composição e Regência, graduação em Saúde Pública, pós-graduação lato sensu em Ciências Sociais. Atualmente cursa o doutorado no Instituto de Artes da UNESP, sob orientação da profa. Dra. Marisa Trench de Oliveira Fonterrada, cujo tema de pesquisa versa sobre o excesso de ruídos na contemporaneidade, investigado a partir do olhar da ecologia sonora, de Schafer, e do pensamento sistêmico, de Fritjof Capra.

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