John Paynter e “Música Nova”

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“Este é um livro sobre a música moderna nas escolas” (John Paynter, Hear and Now, 1972)

A frase que abre este texto permite apresentar algumas particularidades relativas ao percurso de John Paynter e sua relação com a Educação Musical. Assim, partindo do termo “música moderna”, pergunta-se: que música é essa, a qual ele está se referindo? Para responder à questão, é preciso situá-lo no tempo e espaço de sua história pessoal.

O educador musical e compositor John Frederick Paynter, nasceu em Londres, Inglaterra, no dia 17 de julho de 1931 e faleceu em 01 de julho de 2010. Apesar de sua infância pobre e a música não ser uma característica forte de sua família, quando ainda jovem, sua mãe lhe comprou um piano, o que permitiu que ganhasse uma bolsa para estudar em Bettersea, onde conseguiu aprimorar seus conhecimentos musicais. Graduou-se em 1952 pela Trinity College e, após o serviço militar, optou por dedicar-se à carreira docente¹

Inicialmente, atuou como professor em uma escola de Ensino Fundamental², onde era responsável, também, pelas aulas de música das séries iniciais. Foi, ainda, professor em classes de Ensino Médio durante muitos anos e só em 1969 iniciou sua carreira como acadêmico no Departamento de Música da Universidade de York, na Inglaterra, onde permaneceu até sua aposentadoria, em 1994.

Como pesquisador, coordenou o projeto Music in the Secondary School Curriculum, entre 1973 e 1983, que teve como objetivo avaliar a disciplina Música no Ensino Médio, trazendo para debate o papel dessa linguagem no currículo escolar. 

O projeto desenvolvido durante dez anos em escolas britânicas partiu de uma necessidade constatada em pesquisa realizada pelo Conselho Escolar em 1968, que destacou a baixa popularidade da Música como disciplina curricular e a necessidade de que os professores encontrassem novas maneiras de trabalhar com ela nas salas de aula. 

Em relação à área de Música, os resultados do projeto coordenado por Paynter influenciaram as mudanças educacionais ocorridas depois de 1985, quando houve a substituição dos exames de conclusão do Ensino Médio pelo General Certificate of Secondary Education. Dessa forma, passou-se a considerar a composição como componente obrigatório do exame, tanto que em 1995, com a revisão do Currículo Nacional de Música, as atividades musicais foram separadas em duas “Metas de Realização”: (1) Execução e Composição e (2) Audição e Apreciação (MATEIRO, 2011, p.253-254). 

Ainda como pesquisador, Paynter, entre 1983 e 2002, atuou no Centro di Ricerca e de Sperimentazione per la Didattica Musicale em Fiesole, na Itália, coordenando projetos de pesquisa junto a professores de escolas e professores de instrumentos. 

No que se refere à sua profícua carreira como escritor da área de Educação Musical, destaca-se, como primeira publicação, o livro Sound and Silence, escrito entre 1967 e 1968, junto com Peter Aston, publicado em 1970. 

Em 1972, publicou Hear and Now, sendo essa década uma das mais produtivas no que se refere à quantidade de livros escritos por ele. Na mesma época, publicou The Dance and the Drum (1974), em coautoria com Elizabeth Paynter; Sound Tracks (1978); e All Kinds of Music, coleção composta por quatro livros: Voices, Moods and Messages, Sound Machines, publicados em 1976, e Sound Paterns, de 1979.

Além desses trabalhos, em 1982 publicou o livro Music in the Secondary School Curriculum, relatando os resultados do projeto de mesmo nome, mencionado anteriormente. Em 1992 o educador publicou Sound and Structure e, em 2008, editou, junto com Janet Mills, uma antologia de seus principais textos, no livro Thinking and Making.

Paynter também escreveu diversos artigos, muitos deles acerca dos fundamentos teóricos de suas ideias, para o International Journal of Music Education, a revista italiana beQuadro e o British Journal of Music Education, do qual foi editor junto a Keith Swanwick, no período situado entre 1983 e 1997.

Retornando à pergunta que desencadeou a breve exposição de alguns fatos da carreira de Paynter – “que música é essa, à qual ele está se referindo?” –, é possível perceber, por uma questão cronológica, que Paynter iniciou sua carreira como professor e pesquisador no período de transformações pós Segunda Guerra Mundial, o que influenciou suas ideias como educador e como compositor.

Respondendo, então, o questionamento colocado, Paynter está se referindo, na frase, aos compositores da Música Nova da segunda metade do século XX. Compositores como Pierre Schaffer, Karlheinz Stockhausen, Pierre Boulez, Oliver Messiaen, Edgard Varèse, John Cage, entre outros.

Segundo Mateiro, esses compositores buscaram romper com o passado: 

[…] inserindo materiais, técnicas, ferramentas e novos métodos à música. Novos valores estéticos entraram em vigor. O som e o silêncio são reestruturados, a tecnologia eletrônica é incorporada como um meio de fazer música, qualquer fenômeno sonoro é considerado fonte de criação musical, impõe-se o aprendizado da pesquisa sonora, surge uma nova atitude frente à capacidade de escuta e cria-se uma nova notação para escrever música. (MATEIRO, 2011, p.246)

Muitos educadores musicais desse período alinharam-se a essas concepções e buscaram incorporar à prática da educação musical nas escolas os mesmos procedimentos dos compositores de vanguarda. Eles são chamados de educadores musicais da “Segunda Geração”, termo que os permite diferenciar, de acordo com Fonterrada (2008, p.178), dos educadores musicais da “Primeira Geração”, precursores dos métodos ativos no ensino de música, como Émile-Jaques Dalcroze, Edgar Willems, Zoltán Kodály, Carl Orff e Shinichi Suzuki, por exemplo.

Assim, por fim, John Paynter, ao lado de educadores e compositores como George Self, Brian Dennis, Murray Schafer, Gertrud Meyer-Denkmman, François Delalande e Boris Porena, apenas para citar alguns, pertence ao grupo dos educadores musicais da Segunda Geração. 

Notas de Rodapé

1 – Informações obtidas no obituário de John Paynter, publicado na versão on-line do The Guardian de 03 de agosto de 2010. Disponível em: http://www.theguardian.com/education/2010/aug/03/john-paynter-obituary. Acesso em: 26 out. 2015.

2 – Os termos Ensino Fundamental e Ensino Médio não são usados na terminologia britânica, todavia, nesta Dissertação, se utilizará, por serem equivalentes, as expressões supracitadas em substituição, respectivamente, à Educação Primária e Educação Secundária, que figuram nos textos de Paynter.

Referências 

MATEIRO, Teresa. John Paynter: a música criativa nas escolas. In: MATEIRO, Teresa;

ILARI, Beatriz (Org.). Pedagogias em educação musical. Curitiba: Ibpex, 2011. p. 243-274. 

PAYNTER, John; ASTON, Peter. Sound and silence: classroom projects in creative music.  London: Cambridge University Press, 1970.

PAYNTER, John. Hear and now: an introduction of modern music in schools. London: Universal Edition, 1972.
_______. Sound and structure. London: Cambridge University Press, 1992.

Tiago Teixeira Ferreira é educador musical, pesquisador, clarinetista e regente. Licenciado em Educação Musical e Mestre em Música, dedica-se à pesquisa de práticas criativas em Educação Musical e como elas podem auxiliar nos processos de aquisição da linguagem da música. Ainda, pesquisa a respeito de processos de aprendizagem musical em propostas coletivas de ensino de música. É integrante do G-PEM (Grupo de Pesquisa em Educação Musical), atua como clarinetista em uma Banda de Música Militar, é membro do Seminário Permanente de Regência MUSICAD, além de coordenador pedagógico, professor e regente em projetos sociais de ensino de música.

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