22 de agosto de 2014, Jaraguá do Sul

Junte-se à uma nova comunidade de pessoas apaixonadas pela criatividade musical.

Entre para nossa lista e receba conteúdos exclusivos e com prioridade

Eis que surge, mais uma vez, o afastamento.

Mas um afastamento muito mais ao lado do que é são e sem interferências de elementos exteriores e interiores ao ego.

Afasta-te do mundo virtual.

Olá, novamente, mundo real.

Faz bem. E muito.

Numa confusão mental onde alguns seres apenas te virtualizam, viver a realidade e focar a mente na reflexão de uma forma mais minuciosa e meditativa possível têm sido grandes aliados para que as coisas pudessem acontecer nesses últimos tempos.


Precisava de ar.

“O pulso ainda pulsa”, mas não com escala ao infarto. E isso, graças a vida, eu aprendi a refutar: O infarto.

– Professor, minha menina está mal e internada no hospital. Está na UTI fazendo tratamento de uma hora para outra, mas está melhorando e logo sai de lá.

– Que notícia boa! Espero que ela volte logo para a gente continuar a soprar nossas flautas.

– É isso que eu iria te falar. A única hora que ela se sente feliz é quando ela pode tocar a flauta dela deitada na maca. Ela adora o que tem aprendido com você e até as enfermeiras já formaram a plateia. Quero muito te agradecer, pois sem isso acho que ficaria muito triste e a recuperação não seria boa.

Em um outro momento, qualquer deficiência não é barreira:

– Professor, você não imagina o quanto ela, mesmo sem poder enxergar, fala direitinho sobre como achar as notas da música que você ensinou à ela no teclado. Realmente é incrível! O que acha de eu pedir a uma amiga para imprimir em braile e você continuar ajudando ela?

– Acho ótimo! Mas ela tem conseguido achar a primeira nota, por exemplo, só com a memória auditiva. E isso está sendo o mais gostoso de desenvolver. Claro que o braile será usado, mas ver o quanto ela reconhece o som com imediatismo é realmente gratificante.

– É verdade… Mas eu trago as notas em braile, pode ser?

– Claro! É assim que se escreve <entrego uma folha com as cifras musicais> e você pede pra traduzir e imprimir depois.

Um longo e apertado abraço é dado entre professor e mãe que, realizados, seguem a sua vida tendo como referência as capacidades e desenvolvimento de uma menina cega de apenas 6 anos.

Ou aquele momento em que você se derrete num abraço dado por uma aluna de 5 anos com Síndrome de Down na frente da sua mãe quando a vem buscar:

– Prô… Seu abraço é tão bom!

– Ôôô, meu doce… É que eu gosto muito de te abraçar! Vem dar mais um UPA aqui! UPAAA!!

– Êêêêêê!! Que legal! Lembrou o abraço que meu pai me dá!

– Ah, é?

– É o melhor abraço do mundo!


A mãe me olha com o sorriso largo, olhar marejado e me retribui um abraço curto, porém apertado e sincero. Ecoou no corpo como um inefável agradecimento.

Nessa realidade intensa e verdadeira o meu bem mais precioso se torna cada vez mais presente e cúmplice. Eis que um dia desses minha jóia, depois de falar tanto que queria conhecer meus alunos, vem participar de uma das minhas aulas.

Chegou um pouco atrasada, mas foi só abrir a porta para um delicioso abraço no meio da “bagunça” e todos os outros pequenos vieram perguntar:

– É essa sua filha que você disse que vinha, prô?

– Sim! Vocês querem brincar com ela também?

– SIMMM <responde o côro>

– EBA!! <levanto comemorando com eles>

– Prô…

– Diga, meu anjo.

– Sua filha é muito linda! Uma gracinha!

– Obrigado, meu bem! Me dê um abração aqui também! UPA!!

E ela, vestida de bailarina ria, interagia e se divertia. Em nenhum momento se intimidou pelo fato do pai ser o professor. Talvez de tanto contar as minhas histórias para ela, inconscientemente soube separar o professor do pai e se comportou de igual para igual. 

Em vários momentos tive que segurar o choro por ver tanta luz por parte dela naquele momento especial.

Foi bem mais difícil o pai se separar do professor nesse instante.

E aquela hora que você e sua turma passam a aula toda rindo de bobiças:

– Ei! Olha para a folha <partitura>! A música tá escrita ali para você tocar no teclado e não na minha testa! E eu sou feio demais para você ficar olhando pra mim, num é?! Acredita que você consegue!

hahahahahahahahahaha! Não, prô… você não é feio…

– Não? <solto um sorriso e fico me achando>

– Na verdade você não é feio e nem bonito…

– Deus pai… Fiquei com medo agora…

– Aah… você é normalzinho…

– Ufa… Agora me sinto bem melhor… obrigado!

E a aula toda flui produtivamente, mas sempre um dos alunos rindo ao lembrar que eu sou “normalzinho”.

E quando as realidades são um tapa na sua cara:

– Professor! Eu sei que você fuma. Não adianta esconder!

– Éééé! Para de fumar! <grita o côro de quase 15 crianças>

– Você pensa que isso é bonito hein, prô?

– Mas eu….

– Nada de “mas”! Que coisa feia você fumando…

– Tá… então deixa eu explicar a minha história com o cigarro, posso?

– DEVE!

E a aula de música fluiu, mas o assunto foi sobre a minha história com o cigarro e os perrengues que passei por causa dele. Foi uma conversa onde aqueles pequenos prestavam muita atenção e se assustavam com as histórias. Não era alguém falando para simplesmente não fumar. Era alguém fazendo um depoimento do quanto esse vício é maldito.

– Meu deus, prô! Você passou por tudo isso e continua fumando? Você é um imbecil!

– Sim! Eu sou um idiota, mas é um vício! E todo vício é uma doença!

– Então porque você não se vicia em MÚSICA logo de uma vez, hein? Não é melhor, seu bobão?

– … <sensação de um tapa bem dado na cara>

No final fui literalmente imobilizado por quase 15 crianças que, naquele momento, viram que eu tinha esquecido a carteira de cigarro no bolso, arrancaram ela de lá a força, rasgaram alguns pedaços e quase a jogaram fora não fosse a intervenção de uma das monitoras do espaço que ouviu a muvuca.

Nem preciso dizer o quanto isso tem me deixado cada vez mais reflexivo sobre esse assunto.

E outras realidades acontecem com os adultos também! 

Foi naquele dia em que fiquei honrado em ser convidado a dar uma manhã inteira de capacitação para os professores da educação infantil de uma das escolas.

Uma manhã super produtiva e que, visivelmente, mexeu com todos aqueles profissionais que estavam lá prestando atenção em cada detalhe no que é realmente feito em uma aula de musicalização e sua importância.

– Nossa, estou realmente impressionada e feliz em saber o quanto é importante o estudo das frequências sonoras e como elas influenciam desde a gestação. Eu que achava que musicalização era só dar um instrumento qualquer ou cantar aquelas músicas conhecidas para as crianças somente descontrairem, devo admitir que tenho até vontade de ser mãe novamente e trabalhar com música desde a gravidez. Obrigada! Estou muito feliz por ter passado essa manhã com você.

Em uma sintonia incrível conseguimos realizar diversas atividades e debater assuntos que influenciam diretamente na formação cognitiva destes pequenos cidadãos. Foi transformador para todos.

Praticamente todos os dias ouvir “Prô, eu te amo”, dar e receber abraços ou ser surpreendido por novos alunos ao ponto de ouvir:

– Caramba… Quando tiver a sua idade, eu quero ser assim que nem você: Professor, músico e gente fina. 

Esses e outros fatos foram e estão acontecendo que cada vez mais me puxam para viver intensamente a minha realidade. É um constante despertar para o que a vida me traz e assim atuar como um ser humano. 

Após a tensão da enchente tudo veio de volta de uma maneira quase que imediata. 

“Espere a tempestade que a bonança virá” – já dizia uma das letras da minha primeira banda autoral. 

Casa nova.

Móveis, roupas e utensílios doados com muito carinho e sinceridade. 

Muito amparo e amor de próximos e desconhecidos. 

Coisa que jamais irei esquecer e agradecer.

Recentemente fui convidado a voltar para um projeto artístico que faz parte da minha história, de varias outras pessoas e de um movimento cultural da época. 

E nas últimas semanas uma conquista que acreditava que iria ser a mais demorada: um carro.

No entanto, a melhor de todas: a contínua e crescente clareza dos sentimentos.

Não troco essa realidade por nada nesse mundo. Por isso o virtual se tornou obsoleto. Nada atrativo. Apenas pontual.

Talvez o maior erro desses últimos tempos foi de, junto com o afastamento virtual, parar de escrever os vários e belos casos que venho passando.

Ou não. 

É possível entender também que eles estejam escritos na alma e circulam em uma veia de luz onde corre um sangue que está sempre em direção a paz e a felicidade. 

Porém é fato que espaços de virtualidades são recursos importantes para retratos de realidades.

Por isso não sumi ou deletei acessos.

Simplesmente continuo vivendo.

p.s.: desculpa aí… É que deu vontade de escrever. :p

Educador musical, consultor e pesquisador, além de compositor e arranjador. Licenciado em Educação Artística com Habilitação em Música (UDESC) e Pós-Graduado em Educação Musical (CENSUPEG). Em Florianópolis (SC) atuou na cena de bandas autorais assim como em projetos e pesquisas sociais de música nos grupos Arrasta-Ilha, Balakubatuki e Siri-Goiá. Atualmente é educador em musicalização infantil, violão, canto, iniciação ao teclado e atua como regente do Grupo de Maracatu “Aurora do Vale” no município de Jaraguá do Sul (SC). É o formador oficial em Santa Catarina do coletivo de Educadores “Música e Movimento” com coordenação de Uirá Kuhlmann.

Nenhum comentário ainda on 22 de agosto de 2014, Jaraguá do Sul

Deixe um comentário