Aulas de violino, criatividade e troca de experiências – Parte 1

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Texto de Samuel C. de Pontes

Inícios: como tudo começou e o que virou.

Este texto tem como objetivo apresentar um relato de experiência das aulas de violino que venho desenvolvendo com a professora Francesca Dell’Olio. Ela tem sido minha professora de italiano desde 2019 e ano passado, 2020, depois de saber que eu tocava violino, estudava e trabalhava com música, propôs uma coisa parecida com a frase a seguir: “e se a gente começasse a trocar aulas? Eu estou querendo aprender violino e pensei que você poderia me ensinar. O que acha?”. Confesso que, quando ela propôs isso, pensei em dizer que não dava mais aulas de violino, que não estava estudando instrumento como antes e que, portanto, essa não seria uma boa ideia. De fato, eu sentia que esse universo já estava ficando no meu passado. Não o universo da música, é claro, mas desse mundo do instrumento, da técnica, das escalas e arpejos diários e das peças prontas, cuja tarefa do instrumentista — e do estudante de instrumento — é, apenas, tocar. Não estou dizendo que se trata de uma tarefa fácil, banal ou que todas as relações com um instrumento funcionam desse modo e, sim, que o lugar em que eu estava, naquele momento — e agora, também — não era mais o da aula de instrumento que povoa o meu imaginário.

“Aulas de violino, do jeito tradicional, não quero dar, posso fazer alguns experimentos?”

A frase que dá nome a este item estava na minha cabeça o tempo todo quando conversamos a respeito das aulas e decidimos começar. Na verdade, não tenho certeza se alguma vez ela foi elaborada exatamente desse jeito, mas sei que nós dois estávamos — e ainda estamos — buscando maneiras de lidar com o conhecimento — a música/o violino e o italiano. Assim, a ideia de “fazer experimentos” com as aulas e com a linguagem faz parte do conjunto de características principais da experiência aqui relatada. Além disso, não se trata de uma condição provisória, antes que surja um método fechado, melhor e mais adequado. Trata-se, ao invés disso, de uma condição permanente: experimentar, colocar as coisas em movimento, como modo de atuar1.

Tempo e lugar: é possível estar em dois lugares diferentes ao mesmo tempo?

Quando começamos, fizemos algumas aulas presenciais e outras por videoconferência. No entanto, há alguns meses, a pandemia se agravou e Francesca resolveu passar um tempo na Itália, junto com a família. De lá para cá, eu tenho a sensação de que estou em dois lugares ao mesmo tempo, quando nos encontramos. Um exemplo disso é que, na despedida, ela costuma dizer “bom almoço” e eu respondo “bom final de tarde”, já que o almoço do dia é coisa do passado, para ela, naquele momento. Assim, outra característica dessa experiência é que ela tem se desenvolvido à distância, com aulas síncronas de mais ou menos uma hora e meia por semana. Sim, nossos encontros são de três horas, metade para o italiano e metade para o violino.

Quem ensina e quem aprende? Quando os papéis se confundem e as possibilidades aparecem

Outra característica que tem relação com a ideia de estar em dois lugares diferentes ao mesmo tempo é a possibilidade de desenvolver dois papéis — o de professor e o de estudante. Com isso, as relações hierárquicas que, inevitavelmente acabam se estabelecendo na relação professor/aluno, são enfraquecidas com esta troca de papéis. Assim, considera-se que este formato abre possibilidades e permite que se estabeleça um diálogo de fato, de maneira a valorizar os conhecimentos e as diferenças de cada um dos envolvidos. Além disso, entende-se que a ausência de pagamentos — ninguém recebe ou paga pelas aulas, trata-se de uma troca — é outra característica que, também, tem alguma influência nesse sentido.

Leia a segunda parte deste relato para conhecer alguns exemplos de atividades desenvolvidas nesta experiência!

1 A respeito dessa ideia, sugere-se a consulta do terceiro Platô de Deleuze e Guattari “10.000 a.C. A Geologia da Moral (Quem a Terra Pensa que É?)” (DELEUZE-GUATTARI, 2012).

Referências

DELEUZE,  Gille e GUATTARI, Felix. Mil Platôs No.3. São Paulo: Editora 34, 2012

PONTES, Samuel Campos de. Diversas Lentes de Leitura do Método Suzuki: diálogos e outras experiências literárias. Dissertação de Mestrado. Instituto de Artes da Unesp – Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho.

https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/151628/pontes_sc_me_ia.pdf?sequence=3&isAllowed=y

PORENA, Boris. KinderMusik. Edizioni Suvini. Milão:1973

_____________. Musica Prima. In. Porena. B. Le Indagini Metaculturale. vol 2, livro 6. Famiglia Porena-Bucan. IIMM, Cantalupo: Itália. 2017

SUZUKI, Shinichi. Suzuki Violin School – Violin Part Volume I. Revised Edition: Florida: Summy-Birchard,​ ​2007

Samuel Campos de Pontes

Samuel Campos de Pontes é Mestre em Música pela Unesp (2017). Licenciado em Artes: Música pela Unicamp (2014). Formado em violino pelo Conservatório de Tatuí (2013). Atualmente desenvolve pesquisa de Doutorado a respeito da obra do compositor e educador musical italiano Boris Porena no Instituto de Artes da Unesp, área de Educação Musical, sob orientação da Profa. Dra. Marisa Fonterrada. É integrante do G-pem – Grupo de Pesquisa em Educação Musical. Atua como professor de música no Colégio Etapa-SP (Ensino Fundamental 1)

Bruno Millan é professor de música, baixista e luthier de instrumentos de cordas dedilhadas, formado no Bacharelado e Licenciatura em música pela Faculdade Santa Marcelina (FASM). Atualmente é mestrando em Música na linha de pesquisa de Educação Musical pela Universidade Estadual “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), sob orientação da Professora Livre-Docente Marisa Fonterrada, e baixista do Quarteto Hipocrisia, grupo de música instrumental.

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