Escuta e experiência

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Em 2020, por conta da pandemia global do coronavírus, as possibilidades de exercer os meus trabalhos ficaram muito restritas e prejudicadas. Shows, oficinas e exposições foram cancelados. Aos poucos, o mundo foi se adaptando e encontrando maneiras de prosseguir, mesmo que com representações do que era feito presencialmente, com os encontros remotos a partir de plataformas de reunião digital, lives e expansão das redes sociais como canais de difusão da arte. 

Ainda um tanto receoso em relação a esse caminho, mas impelido pela necessidade não só financeira, mas do encontro mesmo que de maneira artificial, fui aos poucos me adaptando a esses novos tempos dos encontros remotos, dos refrãos: “você está com o microfone fechado”, “você me ouvem?”, “abram a câmera para eu ver os seus rostos”. Ao fazer essa concessão, lançando-me no mundo digital, pude, então, participar de lives, entrevistas (provavelmente algumas impossíveis se não nesse formato, como a que dei para um canal de Singapura), e convites para oficinas de música surgiram.

Para adaptar as oficinas do mundo dos encontros presenciais para o mundo do distanciamento, precisei refletir sobre o que seria essencial além do encontro? O que ocorria nas oficinas presenciais que fosse valioso o suficiente para transpor essa barreira da tecnologia? Minhas oficinas sempre tiveram um caráter prático, onde eu procurava levar as pessoas para o caminho da vivência, da experiência.

Com isso em mente, elaborei maneiras para que os participantes das oficinas, mesmo que de maneira remota, pudessem correr o risco de fazer coisas práticas, como experimentar os sons do próprio corpo e se encantar com isso, como foi o caso das crianças na escola municipal de Campinas, e é dessas experimentações que falarei a seguir.

No final de setembro, uma coordenadora de uma escola municipal de Campinas, interior de São Paulo, me consultou sobre a possibilidade de eu dar uma oficina para a escola dela. As informações não estavam muito claras, se era para professores ou alunos, quantas pessoas haveria e qual assunto seria abordado. Sabia que seria algo relacionado à música e pela minha perspectiva.

Inicialmente, pensei em compartilhar sobre a possibilidade da construção de instrumentos musicais com materiais do dia a dia. Porém, nestes novos tempos “coroniais”, o encontro seria remoto e descobri que ele ocorreria com os alunos, crianças entre 9 e 12 anos. Fui informado que o acesso aos materiais também estava restrito. Ferramentas e supervisão de adultos totalmente incerta. Essas informações foram chegando aos poucos, enquanto a data marcada para a oficina ia chegando. Fiz um esboço mental com a direção que seguiria, que é a de proporcionar experimentações sonoras tanto para mim quanto para quem participa.

Chegou o dia e horário, fiz o login (fui “lembrado” da oficina às sete da manhã. Ela ocorreria às dez. Escrevi o lembrado entre aspas, pois não havia uma confirmação assertiva sobre a ocorrência ou não da oficina na plataforma digital, e bum! Estava aberto o campo de provas. Havia cerca de 40 pessoas, sendo três ou quatro professores e o restante, crianças com uma variedade grande de ideias e de condições. Diferentemente das oficinas onde as pessoas vão até o local onde estou. Neste formato, eu é quem vou para as casas delas. Vi cozinhas azulejadas e salas feitas de compensado. Vi quartos decorados com temas infantis e casas inteiras onde eu via a sala, cozinha e as camas no chão, num mesmo cômodo. Ouvi brigas de crianças disputando o único celular da casa para poder estar na minha oficina. 

Me veio uma memória de uma oficina que dei no Sesc Parque Dom Pedro em São Paulo, onde havia refugiados e meninos de rua. Como eles estariam neste momento sem acesso? …

Abri a oficina mostrando as possibilidades de instrumentos escalafobéticos com os que eu já tinha aqui, tocando para eles. Foi interessante pois vi, nos que estavam com a câmera aberta, uma faísca nos olhos. Típica da curiosidade acendendo, da imaginação fluindo, sem importar em qual casa era.

Mas para tornar a experimentação significativa, teria que fazê-los soar de alguma forma. Sem material disponível… O que eles poderiam usar? Ora, o próprio corpo! Temos um instrumento musical que nos acompanha desde que nascemos. É verdade que somos ensinados a não usá-lo. Na escola temos que ficar sentados e exercitar somente a cabeça. Para a religião católica, o corpo representa o pecado…

Para a nossa sorte, não estávamos nem na igreja, nem na escola. Estávamos em nossas casas.

Propus então, a exploração dos timbres possíveis do nosso corpo. Os tipos de palmas, o som das mãos percutindo a barriga, peito, coxas, perna, o som dos pés batendo no chão. Mostrei vídeos do Barbatuques e Stomp e ensinei uma música dos Barbatuques chamada Hit Percussivo, além dos ritmos brasileiros como o samba e o baião.

Dava para ver a alegria das crianças, que chamavam os irmãos menores, pais e quem estivesse por perto para explorarem juntos.

Tanto professores quanto a coordenadora disseram que gostariam de receber mais intervenções/experimentações como essa em outras oportunidades. Fico com a sensação de missão cumprida.

Atuando nesse cotidiano alterado, foi possível presenciar a desigualdade social e econômica tão de perto ao entrar nas casas dos alunos, coisa que no cotidiano anterior era possível apenas intuir e imaginar. 

Mauro Tanaka Riyis - artista sonoro, educador, músico e luthier de instrumentos de cordas e de instrumentos alternativos. Estudioso e fabricante do instrumento africano Asalato; fundador e coordenador do grupo musical Escalafobéticos que faz música a partir de objetos do cotidiano ressignificados, membro da Orquestra do Corpo - grupo musical que faz música com o próprio corpo, organizada por Fernando Barba (Barbatuques), graduado em Educação Física e Música, Mestre pelo programa de pós-graduação em educação pela Universidade de Sorocaba - UNISO; integrante do Grupo Ritmos Estética e Cotidiano Escolar - GRECE e do Grupo de Pesquisas em Educação Musical - G-Pem.

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